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domingo, 26 de julho de 2009

Bilhetes Trocados

A água morna do chuveiro escorria por aquele corpo feminino bem delineado. A mulher se enxaguava e já se preparava para sair. A mente satisfeita com sua mais nova conquista e relaxada pela noite bem dormida. Débora saiu do banho e rumou para o quarto daquele luxuoso hotel, onde passara a noite. Na cama, jazia deitado e ainda em profundo sono, sua última vítima. O homem era um verdadeiro deus grego da atualidade. Alto, forte, bonito, rico e com uma ótima presença de cama. Era um retrato vivo da perfeição masculina. Mas Débora não estava nem aí pra isso. Ele fora apenas uma “transa de uma noite só”. Suas amigas não acreditariam que ela dispensaria um homem daquele. Mas ela o faria. Vestiu-se o mais rápido e silenciosamente que pôde para sair antes que ele despertasse.
Depois de devidamente arrumada, ela puxou de sua bolsa um bloco de papel e uma caneta que sempre a acompanhavam. Já tinha as palavras do conteúdo do bilhete na ponta da caneta: “Querido Bob..”. Não era Bob o nome do tal homem. “Denis? Não. Carlos? Também não...”. Percebendo que iria chegar a lugar algum com isso, ela caminhou até a mesa de cabeceira da cama e pegou a carteira do sujeito, vasculhando a procura de algum documento que informasse seu nome. Encontrou sua carteira de habilitação. Logo acima, vinha o tal nome: “Paulo Costa Almeida”. Então ela pôde finalmente, escrever seu bilhete.

Querido Paulo,
Nossa noite foi incrível. Eu aproveitei cada segundo da sua presença e você é um homem fantástico. Mas infelizmente não pude ficar e esperar você acordar. Tenho tarefas urgentes a resolver e não posso perder um segundo sequer. Não se preocupe, ainda tenho seu telefone bem guardado. Eu ligarei para nos vermos novamente.
Com carinho, Debby.


Posicionou o bilhete sobre a carteira de Paulo e rumou até a porta. Deu uma última olhada naquele pedaço de mau caminho em forma de homem e deixou o quarto. Poderia estar jogando pela janela uma ótima oportunidade de tê-lo só para si. Mas o preço de ser somente dele era alto demais para ser pago.
Débora era uma mulher que sabia atrair olhares. Tanto os masculinos cobiçosos, quanto os femininos invejosos. Não era por menos. Débora possuía um charme incomparável embutido naqueles 175 centímetros de puro veneno que era o seu corpo. Medidas de tirar o fôlego de qualquer marmanjo que cruzasse seu caminho. Busto: 90 cm. Cintura: 64 cm. Quadril: 93 cm. Sem contar seu rosto angelical, olhos verdes profundos e cabelos lisos e loiros, sedosos e muito bem tratados. De fato, não é para muitos.
A mulher deixou o hotel e rumou para sua casa. Era manhã de sábado e as ruas estavam calmas, pouco movimentadas, o sol matinal estava do jeito que ela gostava – nem quente demais, mas o suficiente para aquecer seu rosto – e com uma leve brisa fresca. Ela caminhou algumas quadras até se ver perante uma luxuosa edificação. Um edifício residencial de alto nível.
Débora era a única herdeira de uma fabulosa herança deixada por seu falecido pai. Sua mãe morreu quando ela era apenas uma garotinha e seu pai, quando ela já tinha vinte e dois. Agora com vinte e cinco, Débora não se preocupava em trabalhar. Apenas pagava os melhores investidores da região para que eles cuidassem de sua estimada herança.
Quando chegou em seu apartamento, largou a bolsa e o casaco sobre a primeira poltrona que encontrou pela frente e rumou rapidamente para seu quarto. Jogou-se na fabulosa cama de colchão d’água e afundou-se sob os confortáveis cobertores de pêlo de chinchila. Pois é. Débora não estava nem aí para o enorme número de chinchilas que precisariam perder a vida para que um cobertor daqueles fosse feito, contanto que ele fosse confortável. Repousou a cabeça levemente sobre o travesseiro de penas de ganso e cerrou os olhos. Dormiu tranqüilamente o resto da manhã. Essa era a sua tarefa urgente a ser resolvida.
Os três dias que se passaram foram muito semelhantes. Débora saiu, foi para boates de dança e casas de shows. Sempre saía acompanhada de um homem e só voltava para casa no dia seguinte. Mas nenhum deles se comparava a Paulo, em nenhum quesito.
Sábado. Débora tinha um ritual. Os sábados eram feitos para fazer alguma coisa não habitual. Assim, ela decidiu ligar para algumas amigas. Rumaram todas para um barzinho badalado nas redondezas do apartamento de Débora. Adventure. O bar mais chique e falado dos últimos tempos. Como dinheiro não era problema para Débora, ela decidiu pagar para todas as suas amigas.
No começo da noite, elas pegaram uma mesa, tomaram uns drinks e jogaram conversa fora. Mas a partir da meia-noite, um dj famoso deu início à badalação. Tocando os sucessos de pista no cenário eletrônico mundial, não tardou a fazer com que muitas pessoas deixassem as mesas e fossem à pista de dança. Não foi diferente para Débora e suas amigas. No meio da agitação, Debby acabou por se separar das amigas. Mas não se importou e continuou dançando, uma mulher bonita chamava mais atenção sozinha do que em grupo.
Débora dançava euforicamente e chamava atenção de muitos homens. Mas ela não se interessou por nenhum em especial. Queria apenas dançar. Foi quando olhou para o lado e se assustou com o que viu. Paulo, sempre se destacando no meio da multidão, vinha na direção dela olhando para os lados como se procurasse alguém. Provavelmente por ela. “Será que alguma de minhas amigas disse a ele que eu estaria aqui?” foi a primeira coisa que passou pela cabeça de Débora ao vê-lo. Resolveria isso depois, pois agora precisava sair de lá antes que ele a visse. Deu três passos na direção oposta a de Paulo, sem tirar os olhos dele, mas não conseguiu ir além. Esbarrou em alguém.
- Desculpe. – disse uma voz masculina. Débora olhou para o estranho. Era um belo homem. Moreno com mechas loiras no cabelo cortado ao estilo Backstreet Boys, lindos olhos azuis, pele macia pelo que ela pôde perceber. – Eu não tinha te visto.
- Não tem problema. – disse Débora olhando ao redor. Paulo se aproximava, ainda procurando por ela. Estava muito perto. Seria impossível não vê-la em breve. A não ser que fizesse algo. – Com licença.
E sem dizer mais nada, beijou o homem que acabara de trombar e ao menos sabia o nome. Ficou naquele beijo até ter certeza de que passara tempo o suficiente para que Paulo já estivesse longe deles. Então cortou o elo que os unia.
- Uau... – disse o homem. Débora, disfarçadamente, olhou ao redor e constatou que Paulo não estava nas redondezas. – Isso foi um tanto inesperado.
- Você não gostou? – questionou Debby sorrindo maliciosamente.
- Eu... é... bem... Claro que sim, mas... – ele não conseguiria terminar a frase. Débora pulara em seus braços mais uma vez.
Horas se passaram rapidamente desde então. Depois de toda demonstração de “afeto” os dois desconhecidos se sentaram para se conhecerem. O homem se identificou como Thiago. Eles conversaram por longos minutos. Thiago afirmou não gostar muito desse tipo de diversão. Disse que preferia passar o tempo em algum lance mais caseiro e que só estava naquele bar por insistência de um amigo. Thiago fazia o estilo romântico. Chegou um momento da noite que Débora não via a hora de sair de lá e cair na cama. Acompanhada por Thiago.
- Aqui está chato... vamos embora? – indagou Débora, cheia de malicia.
- Ahh, vamos... – disse Thiago. – Meu amigo já deve ter ido embora mesmo.
- Então vamos. – Débora levantou-se e puxou Thiago pelo pulso. – Eu pago a conta enquanto você vai pegando o carro.
- Carro? Pra que carro?
- Como nós vamos até o seu apê sem um carro? – questionou Débora, incrédula. Thiago sorriu ironicamente antes de responder.
- Mas o seu apartamento é muito melhor que o meu – argumentou Thiago – e é aqui do lado. Vamos pra lá. Muito mais rápido e prático. Assim podemos... ahm.... dormir mais cedo. – Débora concordou. Não via a hora de se deitar com aquele belo homem. Não sabia bem ao certo o que nele a havia impressionado tanto. Possivelmente o jeito certinho e romântico. Debby mal se importou, mas acabou passando seu telefone para o tal Thiago, sem pestanejar. Ela nunca dava seu telefone para um homem. Mas acabou conseguindo pegar o dele.
Caminharam lentamente até o luxuoso edifício residencial do qual Débora era residente. Subiram pelo elevador e adentraram no majestoso apartamento de Debby. Thiago nem teve tempo de reparar no interior do aposento, pois assim que entraram Débora pulou sobre ele, envolvendo-o em um beijo selvagem de tirar o fôlego. Laçou os braços sobre os ombros do homem e cruzou as pernas em torno de sua cintura. Thiago andou tropegamente até a cama de Débora e se deixou cair sobre ela. O restante dos acontecimentos daquela noite, ficam por conta da imaginação de cada um. Debby não havia percebido, mas estava começando a se interessar por Thiago além do aconselhado para um baladeira. De qualquer maneira, ela teve a melhor transa de sua vida e adormeceu feito um bebê em seguida.
Os primeiros raios de Sol invadiram a janela do quarto de Debby, pousando graciosamente sobre seus olhos cerrados e sonolentos. Algumas horas se passariam até que ela finalmente despertasse. Acordou, sorriu, se espreguiçou. Então olhou para o lado a tempo de ver... nada. Apenas a cama vazia. Debby levantou-se rapidamente e correu por toda a casa. Nenhum sinal de Thiago. Abriu a porta da frente que dava para o hall do elevador. Nada. Ele saiu antes que Debby acordasse, como ela mesma já havia feito milhares de vezes com outros homens.
Debby voltou para seu quarto, arrasada. Entregou seu coração para aquele homem e ele, simplesmente, jogou no lixo. Agora finalmente sabia como todos os outros homens se sentiam quando ela agia de tal maneira. O troco viera a cavalo, e passara por cima dela sem nenhuma piedade. Enquanto se arrastava pelo aposento, Debby avistou um pedaço de papel sobre sua cabeceira. Um papel que, normalmente, não estaria ali. Seu coração bateu apertado. Mesmo sem ler, sabia o conteúdo do bilhete. Pegou o papel na mão e começou a leitura. O bilhete trazia as seguintes palavras, escritas em letra caprichada:

Querida Débora,
Eu adorei a nossa noite. Mas, infelizmente tenho assuntos a resolver e não pude esperar você acordar.
A quem eu estou enganando? Não tenho assunto nenhum a tratar. Eu só não queria me envolver. Acredito que você entenda, afinal, você mesma já teve essa conduta muitas vezes. Inclusive com o Paulo. É, eu conheço o Paulo. O amigo de que falei era o próprio Paulo. Coincidência? É claro que não. A única coincidência foi estarmos no mesmo lugar, na mesma noite. Ele me contou sobre você e eu a reconheci só pela descrição que ele me deu. O que eu fiz com você hoje foi exatamente a mesma coisa que você fez com ele na noite que vocês saíram juntos. Espero que isto lhe sirva de lição e que você aprenda a dar mais valor às pessoas.
Com carinho, Thiago.

Ps: Antes de culpá-lo, quero que você saiba que Paulo não teve nada a ver com isso. Ele nem sabe que eu te conheci.

Ps2: Não se preocupe, ainda tenho seu telefone.


Debby desmoronou por completo. Além de ter sido rejeitada, Thiago a desprezou completamente. Foi um golpe baixo, mas bem dado. Com toda certeza, Debby nunca mais agiria de tal maneira. Mas a ira que sentia por Thiago era algo que nunca antes sentido por ela. Débora se sentia o lixo mais repugnante do mundo, logo ela que sempre fora a pessoa mais metida da face da Terra. Estava completamente humilhada. Permitiria que isso acontecesse?
De repente lhe surgiu uma idéia. E ela nem pestanejou.
Débora correu até sua bolsa e procurou o item que seria essencial para que seu plano funcionasse. Encontrou. Um pedaço de papel com um número de telefone anotado. Pegou seu celular e digitou os números.
Começou a chamar. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Debby começou a desconfiar que não seria atendida quando uma conhecida voz masculina respondeu.
- Alô? – o coração de Debby palpitou freneticamente.
- Alô, Paulo?