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terça-feira, 17 de março de 2009

Futuro é Coisa do Passado

Tempo. O que é tempo? Para a história é uma linha que serve como situador de fatos decorrentes e criações humanas. Para a física é uma variável que calcula a duração da existência de um fenômeno. Para a geografia é a junção homogênea de temperatura, pressão, umidade relativa do ar e índice pluviométrico. Para a língua portuguesa é um substantivo masculino concreto que tem inúmeras definições, dentre as quais, todas as citadas acima.

Tempo. O que é tempo? Para mim, tempo é linear como na história. É variável como na física. É homogêneo como na geografia. É concreto como no português.

Porém, se me perguntassem qual a característica mais marcante do Tempo, eu ficaria com a física. Sim, variável. O físico mais famoso da história já disse isso em seu tempo. “Um segundo segurando uma panela que acabou de sair do fogo parece uma hora, enquanto uma hora com uma linda mulher parece um segundo. Isso é relatividade”. Não foi por isso que Einstein ganhou o premio Nobel, mas bem que poderia. Isso mostra como o tempo é variável, sim.

Ultimamente tenho acreditado que o Tempo deixou de ser tão relativo. Percebo que cada vez menos os segundos parecem horas e cada vez mais as horas parecem segundos. Mal chego ao trabalho e já é hora do almoço. Mal começa a semana e já é sexta-feira. Mal deito, já é hora de levantar. Dormir oito horas por dia, como sugerem os médicos, é tão utópico quanto caminhar sobre a água ou comprar um Ferrari. O cochilo depois do almoço, então, nem se fala.

Caminhando pela rua, um dia desses, passei em frente a uma banca de jornal e vi uma capa de revista que me chamou a atenção. Era uma revista científica que mostrava uma leoa bebendo água em um rio. A manchete: “Água, o ouro do século”. Discordo. Acho que a água será o ouro do próximo século. Desse, porém, é o Tempo.

Aquela máxima tão ouvida “O futuro a nós pertence” não me faz mais sentido. Acho que “Viva o presente” apesar de não ser tão profunda nem bonita, é muito mais plausível. Não temos conseguido fazer nem um dos dois. O Tempo é tão implacável que se o perdemos planejando o futuro, deixamos de viver o presente. O hoje é o mais valioso bem. Pra mim, rico é aquele que sabe aproveitar seu tempo. Conversando com meus pais sobre isso, eles concordam comigo. Disseram que antigamente “daqui a dois anos acontecerá tal coisa” era uma espera sem tamanho, que até esqueciam ou morriam de ansiedade. Oito ou oitenta. Hoje em dia, dois anos passam que nem se percebe. E eu nem vivi tantos dois anos assim. Talvez porque vivemos esperando alguma coisa que está para acontecer. Não é tempo de esperar o futuro. Pois quando ele virar presente, quantos outros presentes deixamos de viver?

Por isso eu digo: Futuro É Coisa do Passado.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sexo, Ultraviolência e Lavagam Cerebral

A idéia surgiu em uma aula de Evolução das Artes Visuais. A professora citou um outro grande clássico dos cinemas, Admirável Mundo Novo (o qual também não tive oportunidade de assistir). A partir daí se iniciou uma discussão sobre grandes filmes clássicos e eternos. E, logicamente, um título não escapou de aparecer. A Laranja Mecânica. Eu me senti um cristão em Roma quando disse que nunca tinha visto o citado filme. Todos olharam para mim chocados. E foi meu amigo Fi que veio ao meu resgate dizendo que tinha o filme e que me emprestaria.

Eficiente como Romário na copa de 94, ele trouxe o DVD remasterizado no dia seguinte sem que eu precisasse lembrá-lo. E ainda tomou a liberdade de incluir Scarface (Fi, eu ainda não assisti esse. Assim que eu ver, devolvo os dois) como bônus. Mas eram vésperas de Carnaval. E sabe como as coisas funcionam aqui no Brasil. O ano começa depois do carnaval, e a nem A Laranja Mecânica escapou da celebração. Deixei o DVD de lado e fui viajar. Voltei na quarta-feira de cinzas e não precisei trabalhar. Mas não tinha condições mentais nem físicas de assistir a sequer um filme infantil, quem dera a um daquele calibre intelectual. Fui parar para ver o filme somente no final de semana que se sucedeu.

A maestria do filme estava além do que eu esperava. Na verdade, nem sabia o que esperar, pois fiz questão de não ler nenhuma sinopse, ouvir qualquer comentário que fosse. Nem sabia do que se tratava o filme, apenas sabia que era uma obra-prima, um clássico. Talvez isso o tenha tornado ainda mais impactante. E o que tenho a dizer desse filme é: Kubrick é um gênio. Desde a escolha do elenco (ele fez questão de ter Malcolm McDowell no papel de Alex, caso contrário não rodaria o filme), até a trilha sonora impecável que, na minha opinião, gera uma antítese irônica sensacional. Usar clássicos como Singing In the Rain e a 9ª de Beethoven em cenas de ultraviolência é um golpe mental para o espectador. De resto são apenas reflexões a respeito daquilo que o filme nos passa.

Antes de iniciar um discurso sobre o filme, vamos analisar o contexto histórico da época. O ano é de 1973. Nos EUA, milhares de jovens marcham contra a guerra do Vietnã, Charles Manson e sua “família” são presos e condenados a morte, e há uma interminável discussão sobre como educar (ou reeducar) criminosos e infratores da lei. É nesse cenário caótico que surge A Laranja Mecânica. Um verdadeiro tiro na cabeça de espectadores e críticos. Alex DeLarge é líder de um grupo de amigos que praticam atos de ultraviolência. Ele e seus drugues (membros da gangue) são responsáveis por atos como o espancamento de um mendigo, uma luta feroz contra um grupo rival, invasão da casa de um escritor - na qual eles espancam o mesmo deixando-o paralítico e estupram sua mulher bem na sua frente enquanto canta Singing In the Rain – e, por fim, invadem a casa de uma bailarina dona de um spa. Nesse último episódio, Alex acaba matando a mulher com uma escultura em forma de pênis gigante. Traído por seus drugues, Alex acaba sendo preso e levado para a prisão. E é nesse ponto que o filme realmente começa. Após um certo tempo na cadeia, Alex ouve sobre um tipo de tratamento que “cura” a pessoa de todo o mal e garante que ela nunca mais voltará para a prisão. Sem nada a perder, ele consegue se tornar a “cobaia” para tal tratamento.

O tratamento Ludovico consiste em aplicar um soro no paciente, e fazer com que ele veja horas e horas seguidas de cenas de violência, guerra e estupro. Nada menos do que uma lavagem cerebral. Após o tratamento, Alex passa por uma prova de que ele funciona perante uma platéia repleta de pessoas ilustres, incluindo o ministro da justiça. Nesse teste, Alex é espancado e humilhado por um homem sem motivo. Mas o tratamento o impede de reagir, causando-lhe uma enorme náusea. Em seguida, uma mulher seminua adentra o palco e fica perante Alex. Mais uma vez o soro o impede de tomar qualquer atitude. Todos os presentes deliram. Não era nem necessário que o padre dissesse “e onde fica o livre arbítrio?” naquela cena. Isso já estava explícito.
E então Alex é solto e acontece uma sucessão de fatos terríveis ao protagonista. Em todas as ocasiões ele é impedido de se defender devido ao tratamento recebido. Até que ele se rende e vê o suicídio como única alternativa para por fim em seu sofrimento. Por sorte Alex acaba sobrevivendo e o tratamento Ludovico é revertido enquanto ele está em coma. Quando ele desperta, uma série de testes comprova que ele não está mais sob influência do tratamento (Pipoca... Carambola... Você não tem bico! Husauhsuahsuahsuhausha, essa parte é sensacional!). E então o filme acaba com uma frase do Alex: “É, eu realmente estava curado”, ou algo bem parecido com isso.

(Mas o fim do filme é apenas o começo da história. O que podemos concluir desse filme? Milhões de coisas diferentes. Se eu fosse citar todas, talvez esse seria o post mais longo da história dos blogs. E provavelmente, ainda assim, deixaria alguma coisa passar. Vou frisar alguns pontos que acho primordiais).

· Justiça é algo muito subjetivo. O que é justo para um, não é para o outro. Isso é fato, não há discussão. Quem me garante que uma lei que está em vigor hoje pode, de fato, ser considerada como justa. Justiça é uma faca de dois gumes. E, geralmente, apenas um dos lados sai realmente justiçado. É isso que Alex nos mostra quando sai “curado” e se depara com todos aqueles que havia maltratado quando era líder do grupo.

· Não existe uma pessoa 100% boa. Assim como também não existe alguém 100% mau. Eu realmente acredito nisso. Eu sei que existem casos e mais casos que apontam para pessoas realmente más. Ainda assim acredito que existe um traço de – se não bondade – humanidade nelas. Em A Laranja Mecânica, o protagonista mostra isso claramente. Mesmo não podendo criar situações de violência, nem mesmo revidá-las, não significava que Alex havia eliminado sua índole violenta. Ele apenas não podia deixá-la aflorar, pois seu corpo reagiria de maneira negativa a isso, devido ao tratamento. Se ele tivesse visto cenas de maltrato a animais, por exemplo, viraria vegetariano. E não porque quis. E sim porque lhe foi imposto. A essência permaneceu intacta, apenas a capacidade de praticar é que foi anulada.

· Punir não é a solução para o crime. Isso é óbvio. Violência gera mais violência. Embora eu acredite nisso, sei que não existe outra maneira (eficaz) de diminuir a criminalidade. Veja bem, diminuir a criminalidade nada mais é que: tirar os criminosos de circulação. O ideal seria se houvesse uma maneira verdadeira de reeducar as pessoas. Ficou claro que o modo Lodovico não é eficaz. A mensagem principal do filme quanto a esse tema é clara. A reabilitação tem que começar na própria pessoa. Nada mais é do o bom e velho: “Só é possível ajudar quem quer ser ajudado”.

Por essas e muitas outras eu achei A Laranja Mecânica um dos melhores filmes que eu já vi. Se não o melhor. É incrível como um filme da década de 70 pode ser tão atual. Alguém que nunca ouviu falar do filme (convenhamos, deve existir) pode assistir e pensar que é um lançamento. Em termos de direção, atuação e trilha sonora, o filme é impecável e não há mais nada que possa ser dito sobre isso. Mas quanto às implicações morais, ainda há muito a ser discutido. Esses pontos levantados são apenas os mais superficiais e explícitos. Àqueles que não assistiram, não percam mais tempo. Um dos melhores filmes de todos os tempos. Malditos críticos. Não sei como não ganhou nenhum Oscar...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Coisas de Herói

Esteven é um cara comum. Às sete horas da manhã ele levanta, toma seu café e vai para o trabalho de ônibus. Chega ao banco onde trabalha já cansado, suado e atrasado. Esteven trabalha como assistente de telemarketing. Na área de cobranças. Sua função é ligar para as pessoas dizendo que tem contas a acertar, juros a pagar. Esteven recebe, em média, vinte e sete respostas mal educadas e dezoito desligadas na cara por hora. Sem contar os espertinhos que dizem não conhecer o nome procurado. O salário é tão pífio que mal dá pra pagar as contas de casa e comer durante o mês inteiro. Não é necessário frisar o nível de humor com que Esteven sai do trabalho.
Esteven voa, tem uma super audição e é invulnerável a balas. Um super-herói comum. Nas horas vagas, Esteven gosta de voar por aí. Ele veste seu uniforme improvisado (que já tem sete anos de idade, dois remendos abaixo do braço direito e um marca de queimadura nas costas, além de estar perigosamente justo por não suportar o crescimento exagerado de sua pança) e faz uma ronda pela cidade. Bate em uns ladrões de bolsas, ajuda velhinhas a atravessar a rua, socorre um bebê que está preso num prédio em chamas. Coisas corriqueiras.
Esteven chega em casa um pouco menos estressado e muito mais cansado. Dá um beijo na mulher, janta, assiste o noticiário (“Super-herói misterioso salva a vida de uma mulher que capotou o carro”), brinca com o cachorro e vai dormir. Esteven sonha que é homenageado pelo prefeito da cidade pelo reconhecimento de seus serviços como herói. Na hora exata que receberia um cheque enorme das mãos de uma loira extremamente peituda vestida com um maiô vermelho decotado, seu despertador tocou, trazendo-o de volta à dura realidade.
Esteven chega em cima da hora e bate o ponto no banco. Senta em frente ao seu computador e analisa a lista de telefonemas que deveria fazer até o final de semana. Mas antes que colocasse o fone no ouvido, seu chefe o chama a sua sala. Depois de minutos exaltando o quanto Esteven era um bom funcionário, o chefe diz que ele está demitido. A ironia da situação força Esteven a cair na gargalhada. Esteven volta pra casa mais cedo naquele dia. A mulher está tricotando quando ele adentra a sala. Ela sorria. Ele forçava um sorriso.
- Preciso te dizer uma coisa. – disse Esteven.
- Eu também preciso. – retrucou a mulher.
- Você primeiro.
- Ganhamos na loteria! – disse a mulher eufórica. – Você finalmente poderá sair daquele emprego que tanto odeia.
Esteven sorriu. Um sorriso verdadeiro como ele não sorria a muito tempo.
- O que você ia dizer?
- Não importa mais. – disse sem emoção. – Eu recebi um pequeno aumento. Mas que diferença faz isso, agora? Pedirei as contas amanhã mesmo.
- Que bom! – disse a mulher.
Esteven sorri. “Que bom mesmo”, pensa. Finalmente poderia comprar um uniforme novo.