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sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Com muito orgulho, com muito amor.

Eu, brasileiro que sou, não pude deixar de sentir orgulho de meu país ao vê-lo desbancar nomes como Espanha, Japão e Estados Unidos, na disputa por ser a sede dos jogos olímpicos de 2016. Confesso que meus olhos se encheram de lágrimas quando o anúncio foi feito. Lágrimas de orgulho. Lágrimas que meu avô e minha mãe (que assistiam ao anúncio ao meu lado) não fizeram questão de conter. Nunca havia visto meu avô chorando antes.
Ser o país escolhido para receber os dois maiores eventos do esporte mundial seguidos, com folga de apenas dois anos entre um e outro não é para qualquer um. É motivo de se orgulhar.
Com isso, novas metas são adicionadas à minha lista. Como por exemplo, finalmente conhecer a cidade maravilhosa e prestigiar os atletas desse meu Brasil no momento mais importante de suas vidas. Disputar uma olimpíada em seu próprio país não deve se comparar a nada na vida de um esportista. Isso eu nunca saberei, mas pretendo muito saber qual é a sensação de assistir a uma.

É claro que são muitas responsabilidades, mas não tenho dúvidas que o nosso Brasil vai tirar de letra. E tenho dito.

Parabéns nação brasileira pela Copa do Mundo e, agora, pelas Olimpíadas Rio 2016! Cidade Maravilhosa, aí vou eu!

Orgulho de ser Brasileiro.

domingo, 26 de julho de 2009

Bilhetes Trocados

A água morna do chuveiro escorria por aquele corpo feminino bem delineado. A mulher se enxaguava e já se preparava para sair. A mente satisfeita com sua mais nova conquista e relaxada pela noite bem dormida. Débora saiu do banho e rumou para o quarto daquele luxuoso hotel, onde passara a noite. Na cama, jazia deitado e ainda em profundo sono, sua última vítima. O homem era um verdadeiro deus grego da atualidade. Alto, forte, bonito, rico e com uma ótima presença de cama. Era um retrato vivo da perfeição masculina. Mas Débora não estava nem aí pra isso. Ele fora apenas uma “transa de uma noite só”. Suas amigas não acreditariam que ela dispensaria um homem daquele. Mas ela o faria. Vestiu-se o mais rápido e silenciosamente que pôde para sair antes que ele despertasse.
Depois de devidamente arrumada, ela puxou de sua bolsa um bloco de papel e uma caneta que sempre a acompanhavam. Já tinha as palavras do conteúdo do bilhete na ponta da caneta: “Querido Bob..”. Não era Bob o nome do tal homem. “Denis? Não. Carlos? Também não...”. Percebendo que iria chegar a lugar algum com isso, ela caminhou até a mesa de cabeceira da cama e pegou a carteira do sujeito, vasculhando a procura de algum documento que informasse seu nome. Encontrou sua carteira de habilitação. Logo acima, vinha o tal nome: “Paulo Costa Almeida”. Então ela pôde finalmente, escrever seu bilhete.

Querido Paulo,
Nossa noite foi incrível. Eu aproveitei cada segundo da sua presença e você é um homem fantástico. Mas infelizmente não pude ficar e esperar você acordar. Tenho tarefas urgentes a resolver e não posso perder um segundo sequer. Não se preocupe, ainda tenho seu telefone bem guardado. Eu ligarei para nos vermos novamente.
Com carinho, Debby.


Posicionou o bilhete sobre a carteira de Paulo e rumou até a porta. Deu uma última olhada naquele pedaço de mau caminho em forma de homem e deixou o quarto. Poderia estar jogando pela janela uma ótima oportunidade de tê-lo só para si. Mas o preço de ser somente dele era alto demais para ser pago.
Débora era uma mulher que sabia atrair olhares. Tanto os masculinos cobiçosos, quanto os femininos invejosos. Não era por menos. Débora possuía um charme incomparável embutido naqueles 175 centímetros de puro veneno que era o seu corpo. Medidas de tirar o fôlego de qualquer marmanjo que cruzasse seu caminho. Busto: 90 cm. Cintura: 64 cm. Quadril: 93 cm. Sem contar seu rosto angelical, olhos verdes profundos e cabelos lisos e loiros, sedosos e muito bem tratados. De fato, não é para muitos.
A mulher deixou o hotel e rumou para sua casa. Era manhã de sábado e as ruas estavam calmas, pouco movimentadas, o sol matinal estava do jeito que ela gostava – nem quente demais, mas o suficiente para aquecer seu rosto – e com uma leve brisa fresca. Ela caminhou algumas quadras até se ver perante uma luxuosa edificação. Um edifício residencial de alto nível.
Débora era a única herdeira de uma fabulosa herança deixada por seu falecido pai. Sua mãe morreu quando ela era apenas uma garotinha e seu pai, quando ela já tinha vinte e dois. Agora com vinte e cinco, Débora não se preocupava em trabalhar. Apenas pagava os melhores investidores da região para que eles cuidassem de sua estimada herança.
Quando chegou em seu apartamento, largou a bolsa e o casaco sobre a primeira poltrona que encontrou pela frente e rumou rapidamente para seu quarto. Jogou-se na fabulosa cama de colchão d’água e afundou-se sob os confortáveis cobertores de pêlo de chinchila. Pois é. Débora não estava nem aí para o enorme número de chinchilas que precisariam perder a vida para que um cobertor daqueles fosse feito, contanto que ele fosse confortável. Repousou a cabeça levemente sobre o travesseiro de penas de ganso e cerrou os olhos. Dormiu tranqüilamente o resto da manhã. Essa era a sua tarefa urgente a ser resolvida.
Os três dias que se passaram foram muito semelhantes. Débora saiu, foi para boates de dança e casas de shows. Sempre saía acompanhada de um homem e só voltava para casa no dia seguinte. Mas nenhum deles se comparava a Paulo, em nenhum quesito.
Sábado. Débora tinha um ritual. Os sábados eram feitos para fazer alguma coisa não habitual. Assim, ela decidiu ligar para algumas amigas. Rumaram todas para um barzinho badalado nas redondezas do apartamento de Débora. Adventure. O bar mais chique e falado dos últimos tempos. Como dinheiro não era problema para Débora, ela decidiu pagar para todas as suas amigas.
No começo da noite, elas pegaram uma mesa, tomaram uns drinks e jogaram conversa fora. Mas a partir da meia-noite, um dj famoso deu início à badalação. Tocando os sucessos de pista no cenário eletrônico mundial, não tardou a fazer com que muitas pessoas deixassem as mesas e fossem à pista de dança. Não foi diferente para Débora e suas amigas. No meio da agitação, Debby acabou por se separar das amigas. Mas não se importou e continuou dançando, uma mulher bonita chamava mais atenção sozinha do que em grupo.
Débora dançava euforicamente e chamava atenção de muitos homens. Mas ela não se interessou por nenhum em especial. Queria apenas dançar. Foi quando olhou para o lado e se assustou com o que viu. Paulo, sempre se destacando no meio da multidão, vinha na direção dela olhando para os lados como se procurasse alguém. Provavelmente por ela. “Será que alguma de minhas amigas disse a ele que eu estaria aqui?” foi a primeira coisa que passou pela cabeça de Débora ao vê-lo. Resolveria isso depois, pois agora precisava sair de lá antes que ele a visse. Deu três passos na direção oposta a de Paulo, sem tirar os olhos dele, mas não conseguiu ir além. Esbarrou em alguém.
- Desculpe. – disse uma voz masculina. Débora olhou para o estranho. Era um belo homem. Moreno com mechas loiras no cabelo cortado ao estilo Backstreet Boys, lindos olhos azuis, pele macia pelo que ela pôde perceber. – Eu não tinha te visto.
- Não tem problema. – disse Débora olhando ao redor. Paulo se aproximava, ainda procurando por ela. Estava muito perto. Seria impossível não vê-la em breve. A não ser que fizesse algo. – Com licença.
E sem dizer mais nada, beijou o homem que acabara de trombar e ao menos sabia o nome. Ficou naquele beijo até ter certeza de que passara tempo o suficiente para que Paulo já estivesse longe deles. Então cortou o elo que os unia.
- Uau... – disse o homem. Débora, disfarçadamente, olhou ao redor e constatou que Paulo não estava nas redondezas. – Isso foi um tanto inesperado.
- Você não gostou? – questionou Debby sorrindo maliciosamente.
- Eu... é... bem... Claro que sim, mas... – ele não conseguiria terminar a frase. Débora pulara em seus braços mais uma vez.
Horas se passaram rapidamente desde então. Depois de toda demonstração de “afeto” os dois desconhecidos se sentaram para se conhecerem. O homem se identificou como Thiago. Eles conversaram por longos minutos. Thiago afirmou não gostar muito desse tipo de diversão. Disse que preferia passar o tempo em algum lance mais caseiro e que só estava naquele bar por insistência de um amigo. Thiago fazia o estilo romântico. Chegou um momento da noite que Débora não via a hora de sair de lá e cair na cama. Acompanhada por Thiago.
- Aqui está chato... vamos embora? – indagou Débora, cheia de malicia.
- Ahh, vamos... – disse Thiago. – Meu amigo já deve ter ido embora mesmo.
- Então vamos. – Débora levantou-se e puxou Thiago pelo pulso. – Eu pago a conta enquanto você vai pegando o carro.
- Carro? Pra que carro?
- Como nós vamos até o seu apê sem um carro? – questionou Débora, incrédula. Thiago sorriu ironicamente antes de responder.
- Mas o seu apartamento é muito melhor que o meu – argumentou Thiago – e é aqui do lado. Vamos pra lá. Muito mais rápido e prático. Assim podemos... ahm.... dormir mais cedo. – Débora concordou. Não via a hora de se deitar com aquele belo homem. Não sabia bem ao certo o que nele a havia impressionado tanto. Possivelmente o jeito certinho e romântico. Debby mal se importou, mas acabou passando seu telefone para o tal Thiago, sem pestanejar. Ela nunca dava seu telefone para um homem. Mas acabou conseguindo pegar o dele.
Caminharam lentamente até o luxuoso edifício residencial do qual Débora era residente. Subiram pelo elevador e adentraram no majestoso apartamento de Debby. Thiago nem teve tempo de reparar no interior do aposento, pois assim que entraram Débora pulou sobre ele, envolvendo-o em um beijo selvagem de tirar o fôlego. Laçou os braços sobre os ombros do homem e cruzou as pernas em torno de sua cintura. Thiago andou tropegamente até a cama de Débora e se deixou cair sobre ela. O restante dos acontecimentos daquela noite, ficam por conta da imaginação de cada um. Debby não havia percebido, mas estava começando a se interessar por Thiago além do aconselhado para um baladeira. De qualquer maneira, ela teve a melhor transa de sua vida e adormeceu feito um bebê em seguida.
Os primeiros raios de Sol invadiram a janela do quarto de Debby, pousando graciosamente sobre seus olhos cerrados e sonolentos. Algumas horas se passariam até que ela finalmente despertasse. Acordou, sorriu, se espreguiçou. Então olhou para o lado a tempo de ver... nada. Apenas a cama vazia. Debby levantou-se rapidamente e correu por toda a casa. Nenhum sinal de Thiago. Abriu a porta da frente que dava para o hall do elevador. Nada. Ele saiu antes que Debby acordasse, como ela mesma já havia feito milhares de vezes com outros homens.
Debby voltou para seu quarto, arrasada. Entregou seu coração para aquele homem e ele, simplesmente, jogou no lixo. Agora finalmente sabia como todos os outros homens se sentiam quando ela agia de tal maneira. O troco viera a cavalo, e passara por cima dela sem nenhuma piedade. Enquanto se arrastava pelo aposento, Debby avistou um pedaço de papel sobre sua cabeceira. Um papel que, normalmente, não estaria ali. Seu coração bateu apertado. Mesmo sem ler, sabia o conteúdo do bilhete. Pegou o papel na mão e começou a leitura. O bilhete trazia as seguintes palavras, escritas em letra caprichada:

Querida Débora,
Eu adorei a nossa noite. Mas, infelizmente tenho assuntos a resolver e não pude esperar você acordar.
A quem eu estou enganando? Não tenho assunto nenhum a tratar. Eu só não queria me envolver. Acredito que você entenda, afinal, você mesma já teve essa conduta muitas vezes. Inclusive com o Paulo. É, eu conheço o Paulo. O amigo de que falei era o próprio Paulo. Coincidência? É claro que não. A única coincidência foi estarmos no mesmo lugar, na mesma noite. Ele me contou sobre você e eu a reconheci só pela descrição que ele me deu. O que eu fiz com você hoje foi exatamente a mesma coisa que você fez com ele na noite que vocês saíram juntos. Espero que isto lhe sirva de lição e que você aprenda a dar mais valor às pessoas.
Com carinho, Thiago.

Ps: Antes de culpá-lo, quero que você saiba que Paulo não teve nada a ver com isso. Ele nem sabe que eu te conheci.

Ps2: Não se preocupe, ainda tenho seu telefone.


Debby desmoronou por completo. Além de ter sido rejeitada, Thiago a desprezou completamente. Foi um golpe baixo, mas bem dado. Com toda certeza, Debby nunca mais agiria de tal maneira. Mas a ira que sentia por Thiago era algo que nunca antes sentido por ela. Débora se sentia o lixo mais repugnante do mundo, logo ela que sempre fora a pessoa mais metida da face da Terra. Estava completamente humilhada. Permitiria que isso acontecesse?
De repente lhe surgiu uma idéia. E ela nem pestanejou.
Débora correu até sua bolsa e procurou o item que seria essencial para que seu plano funcionasse. Encontrou. Um pedaço de papel com um número de telefone anotado. Pegou seu celular e digitou os números.
Começou a chamar. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Debby começou a desconfiar que não seria atendida quando uma conhecida voz masculina respondeu.
- Alô? – o coração de Debby palpitou freneticamente.
- Alô, Paulo?

terça-feira, 5 de maio de 2009

Tempos de Crise

Via nos noticiários: Crise econômica. Bancos em alerta. Seguradoras quebram. Plano de ajuda para empresas. Não se falava de outra coisa.

De repente, não se ouve mais sobre isso. O que aconteceu? A crise acabou?
Não, é algo diferente.
Agora vejo nos noticiários: Gripe Suína, mais X casos confirmados. Gripe Suína chega à Colômbia. Tempestade em São Paulo.

“Ué, mas e o dinheiro?”, você se pergunta. E eu digo, “Foda-se o dinheiro”. De que vale agora esse papel sujo, que passa de mão em mão transmitindo doenças e contaminando a alma de pessoas de bem? A humanidade agora vê que a tal “crise financeira” é marolinha perto da verdadeira Crise que é cada vez mais iminente. A Crise Ambiental.

O homem ficou tão cego por dinheiro, que atropelou tudo para tê-lo. Inclusive o mundo em que vive.

Vi no noticiário de hoje: Nordeste em estado de alerta. Chuvas destroem casas e deixam um sem número de desabrigados.

Mas não era chuva o que eles tanto pediam?

Acredito que daqui em diante a situação só vai ficar pior. E o que podemos fazer para evitar isso? Na minha modesta e leiga opinião, a única coisa que podemos fazer é sentar e esperar. E, enquanto isso, rezar para que a Mãe Natureza não castigue os inocentes.

Mas nesses tempos de Crise eu me pergunto: Será que não sou igualmente responsável?

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O Sexto Dia

Milhões de flechas douradas queimavam no céu enegrecido de apenas cinco dias de idade.
Uma leve brisa cortava os campos verdejantes, fazendo com que o capim dançasse em sincronia perfeita.
As flores exibiam suas cores puras e exalavam seu doce aroma por toda a campina.
Um rio corria límpido e plácido.
O silêncio reinava puro e soberbo.
O alvorecer, que apenas ameaçava pontar timidamente no firmamento, era a única testemunha do que acontecia.


Uma massa de terra molhada, aparentemente inanimada e disforme, ganhou formato.
E vida.
Uma forma humana surgiu onde havia apenas barro.
Como uma borboleta que luta para sair de seu casulo, o homem quebrou a camada de barro duro que o envolvia.
Levantou-se e olhou ao redor.
Ficou deslumbrado com a perfeição daquele lugar.
A mistura de todas as sensação, novas e desconhecidas, o deixou tão atônito que ele mal percebeu a dor aguda que lhe passou pela lateral do corpo.
Só notou quando, de uma de suas costelas, surgiu um ser semelhante a ele.
Semelhante e diferente.


Lá de cima, Deus suspirou.
- Terminei. – fechou os olhos e deixou que o vento batesse em seu rosto. – Agora posso descansar.

terça-feira, 17 de março de 2009

Futuro é Coisa do Passado

Tempo. O que é tempo? Para a história é uma linha que serve como situador de fatos decorrentes e criações humanas. Para a física é uma variável que calcula a duração da existência de um fenômeno. Para a geografia é a junção homogênea de temperatura, pressão, umidade relativa do ar e índice pluviométrico. Para a língua portuguesa é um substantivo masculino concreto que tem inúmeras definições, dentre as quais, todas as citadas acima.

Tempo. O que é tempo? Para mim, tempo é linear como na história. É variável como na física. É homogêneo como na geografia. É concreto como no português.

Porém, se me perguntassem qual a característica mais marcante do Tempo, eu ficaria com a física. Sim, variável. O físico mais famoso da história já disse isso em seu tempo. “Um segundo segurando uma panela que acabou de sair do fogo parece uma hora, enquanto uma hora com uma linda mulher parece um segundo. Isso é relatividade”. Não foi por isso que Einstein ganhou o premio Nobel, mas bem que poderia. Isso mostra como o tempo é variável, sim.

Ultimamente tenho acreditado que o Tempo deixou de ser tão relativo. Percebo que cada vez menos os segundos parecem horas e cada vez mais as horas parecem segundos. Mal chego ao trabalho e já é hora do almoço. Mal começa a semana e já é sexta-feira. Mal deito, já é hora de levantar. Dormir oito horas por dia, como sugerem os médicos, é tão utópico quanto caminhar sobre a água ou comprar um Ferrari. O cochilo depois do almoço, então, nem se fala.

Caminhando pela rua, um dia desses, passei em frente a uma banca de jornal e vi uma capa de revista que me chamou a atenção. Era uma revista científica que mostrava uma leoa bebendo água em um rio. A manchete: “Água, o ouro do século”. Discordo. Acho que a água será o ouro do próximo século. Desse, porém, é o Tempo.

Aquela máxima tão ouvida “O futuro a nós pertence” não me faz mais sentido. Acho que “Viva o presente” apesar de não ser tão profunda nem bonita, é muito mais plausível. Não temos conseguido fazer nem um dos dois. O Tempo é tão implacável que se o perdemos planejando o futuro, deixamos de viver o presente. O hoje é o mais valioso bem. Pra mim, rico é aquele que sabe aproveitar seu tempo. Conversando com meus pais sobre isso, eles concordam comigo. Disseram que antigamente “daqui a dois anos acontecerá tal coisa” era uma espera sem tamanho, que até esqueciam ou morriam de ansiedade. Oito ou oitenta. Hoje em dia, dois anos passam que nem se percebe. E eu nem vivi tantos dois anos assim. Talvez porque vivemos esperando alguma coisa que está para acontecer. Não é tempo de esperar o futuro. Pois quando ele virar presente, quantos outros presentes deixamos de viver?

Por isso eu digo: Futuro É Coisa do Passado.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Sexo, Ultraviolência e Lavagam Cerebral

A idéia surgiu em uma aula de Evolução das Artes Visuais. A professora citou um outro grande clássico dos cinemas, Admirável Mundo Novo (o qual também não tive oportunidade de assistir). A partir daí se iniciou uma discussão sobre grandes filmes clássicos e eternos. E, logicamente, um título não escapou de aparecer. A Laranja Mecânica. Eu me senti um cristão em Roma quando disse que nunca tinha visto o citado filme. Todos olharam para mim chocados. E foi meu amigo Fi que veio ao meu resgate dizendo que tinha o filme e que me emprestaria.

Eficiente como Romário na copa de 94, ele trouxe o DVD remasterizado no dia seguinte sem que eu precisasse lembrá-lo. E ainda tomou a liberdade de incluir Scarface (Fi, eu ainda não assisti esse. Assim que eu ver, devolvo os dois) como bônus. Mas eram vésperas de Carnaval. E sabe como as coisas funcionam aqui no Brasil. O ano começa depois do carnaval, e a nem A Laranja Mecânica escapou da celebração. Deixei o DVD de lado e fui viajar. Voltei na quarta-feira de cinzas e não precisei trabalhar. Mas não tinha condições mentais nem físicas de assistir a sequer um filme infantil, quem dera a um daquele calibre intelectual. Fui parar para ver o filme somente no final de semana que se sucedeu.

A maestria do filme estava além do que eu esperava. Na verdade, nem sabia o que esperar, pois fiz questão de não ler nenhuma sinopse, ouvir qualquer comentário que fosse. Nem sabia do que se tratava o filme, apenas sabia que era uma obra-prima, um clássico. Talvez isso o tenha tornado ainda mais impactante. E o que tenho a dizer desse filme é: Kubrick é um gênio. Desde a escolha do elenco (ele fez questão de ter Malcolm McDowell no papel de Alex, caso contrário não rodaria o filme), até a trilha sonora impecável que, na minha opinião, gera uma antítese irônica sensacional. Usar clássicos como Singing In the Rain e a 9ª de Beethoven em cenas de ultraviolência é um golpe mental para o espectador. De resto são apenas reflexões a respeito daquilo que o filme nos passa.

Antes de iniciar um discurso sobre o filme, vamos analisar o contexto histórico da época. O ano é de 1973. Nos EUA, milhares de jovens marcham contra a guerra do Vietnã, Charles Manson e sua “família” são presos e condenados a morte, e há uma interminável discussão sobre como educar (ou reeducar) criminosos e infratores da lei. É nesse cenário caótico que surge A Laranja Mecânica. Um verdadeiro tiro na cabeça de espectadores e críticos. Alex DeLarge é líder de um grupo de amigos que praticam atos de ultraviolência. Ele e seus drugues (membros da gangue) são responsáveis por atos como o espancamento de um mendigo, uma luta feroz contra um grupo rival, invasão da casa de um escritor - na qual eles espancam o mesmo deixando-o paralítico e estupram sua mulher bem na sua frente enquanto canta Singing In the Rain – e, por fim, invadem a casa de uma bailarina dona de um spa. Nesse último episódio, Alex acaba matando a mulher com uma escultura em forma de pênis gigante. Traído por seus drugues, Alex acaba sendo preso e levado para a prisão. E é nesse ponto que o filme realmente começa. Após um certo tempo na cadeia, Alex ouve sobre um tipo de tratamento que “cura” a pessoa de todo o mal e garante que ela nunca mais voltará para a prisão. Sem nada a perder, ele consegue se tornar a “cobaia” para tal tratamento.

O tratamento Ludovico consiste em aplicar um soro no paciente, e fazer com que ele veja horas e horas seguidas de cenas de violência, guerra e estupro. Nada menos do que uma lavagem cerebral. Após o tratamento, Alex passa por uma prova de que ele funciona perante uma platéia repleta de pessoas ilustres, incluindo o ministro da justiça. Nesse teste, Alex é espancado e humilhado por um homem sem motivo. Mas o tratamento o impede de reagir, causando-lhe uma enorme náusea. Em seguida, uma mulher seminua adentra o palco e fica perante Alex. Mais uma vez o soro o impede de tomar qualquer atitude. Todos os presentes deliram. Não era nem necessário que o padre dissesse “e onde fica o livre arbítrio?” naquela cena. Isso já estava explícito.
E então Alex é solto e acontece uma sucessão de fatos terríveis ao protagonista. Em todas as ocasiões ele é impedido de se defender devido ao tratamento recebido. Até que ele se rende e vê o suicídio como única alternativa para por fim em seu sofrimento. Por sorte Alex acaba sobrevivendo e o tratamento Ludovico é revertido enquanto ele está em coma. Quando ele desperta, uma série de testes comprova que ele não está mais sob influência do tratamento (Pipoca... Carambola... Você não tem bico! Husauhsuahsuahsuhausha, essa parte é sensacional!). E então o filme acaba com uma frase do Alex: “É, eu realmente estava curado”, ou algo bem parecido com isso.

(Mas o fim do filme é apenas o começo da história. O que podemos concluir desse filme? Milhões de coisas diferentes. Se eu fosse citar todas, talvez esse seria o post mais longo da história dos blogs. E provavelmente, ainda assim, deixaria alguma coisa passar. Vou frisar alguns pontos que acho primordiais).

· Justiça é algo muito subjetivo. O que é justo para um, não é para o outro. Isso é fato, não há discussão. Quem me garante que uma lei que está em vigor hoje pode, de fato, ser considerada como justa. Justiça é uma faca de dois gumes. E, geralmente, apenas um dos lados sai realmente justiçado. É isso que Alex nos mostra quando sai “curado” e se depara com todos aqueles que havia maltratado quando era líder do grupo.

· Não existe uma pessoa 100% boa. Assim como também não existe alguém 100% mau. Eu realmente acredito nisso. Eu sei que existem casos e mais casos que apontam para pessoas realmente más. Ainda assim acredito que existe um traço de – se não bondade – humanidade nelas. Em A Laranja Mecânica, o protagonista mostra isso claramente. Mesmo não podendo criar situações de violência, nem mesmo revidá-las, não significava que Alex havia eliminado sua índole violenta. Ele apenas não podia deixá-la aflorar, pois seu corpo reagiria de maneira negativa a isso, devido ao tratamento. Se ele tivesse visto cenas de maltrato a animais, por exemplo, viraria vegetariano. E não porque quis. E sim porque lhe foi imposto. A essência permaneceu intacta, apenas a capacidade de praticar é que foi anulada.

· Punir não é a solução para o crime. Isso é óbvio. Violência gera mais violência. Embora eu acredite nisso, sei que não existe outra maneira (eficaz) de diminuir a criminalidade. Veja bem, diminuir a criminalidade nada mais é que: tirar os criminosos de circulação. O ideal seria se houvesse uma maneira verdadeira de reeducar as pessoas. Ficou claro que o modo Lodovico não é eficaz. A mensagem principal do filme quanto a esse tema é clara. A reabilitação tem que começar na própria pessoa. Nada mais é do o bom e velho: “Só é possível ajudar quem quer ser ajudado”.

Por essas e muitas outras eu achei A Laranja Mecânica um dos melhores filmes que eu já vi. Se não o melhor. É incrível como um filme da década de 70 pode ser tão atual. Alguém que nunca ouviu falar do filme (convenhamos, deve existir) pode assistir e pensar que é um lançamento. Em termos de direção, atuação e trilha sonora, o filme é impecável e não há mais nada que possa ser dito sobre isso. Mas quanto às implicações morais, ainda há muito a ser discutido. Esses pontos levantados são apenas os mais superficiais e explícitos. Àqueles que não assistiram, não percam mais tempo. Um dos melhores filmes de todos os tempos. Malditos críticos. Não sei como não ganhou nenhum Oscar...

segunda-feira, 9 de março de 2009

Coisas de Herói

Esteven é um cara comum. Às sete horas da manhã ele levanta, toma seu café e vai para o trabalho de ônibus. Chega ao banco onde trabalha já cansado, suado e atrasado. Esteven trabalha como assistente de telemarketing. Na área de cobranças. Sua função é ligar para as pessoas dizendo que tem contas a acertar, juros a pagar. Esteven recebe, em média, vinte e sete respostas mal educadas e dezoito desligadas na cara por hora. Sem contar os espertinhos que dizem não conhecer o nome procurado. O salário é tão pífio que mal dá pra pagar as contas de casa e comer durante o mês inteiro. Não é necessário frisar o nível de humor com que Esteven sai do trabalho.
Esteven voa, tem uma super audição e é invulnerável a balas. Um super-herói comum. Nas horas vagas, Esteven gosta de voar por aí. Ele veste seu uniforme improvisado (que já tem sete anos de idade, dois remendos abaixo do braço direito e um marca de queimadura nas costas, além de estar perigosamente justo por não suportar o crescimento exagerado de sua pança) e faz uma ronda pela cidade. Bate em uns ladrões de bolsas, ajuda velhinhas a atravessar a rua, socorre um bebê que está preso num prédio em chamas. Coisas corriqueiras.
Esteven chega em casa um pouco menos estressado e muito mais cansado. Dá um beijo na mulher, janta, assiste o noticiário (“Super-herói misterioso salva a vida de uma mulher que capotou o carro”), brinca com o cachorro e vai dormir. Esteven sonha que é homenageado pelo prefeito da cidade pelo reconhecimento de seus serviços como herói. Na hora exata que receberia um cheque enorme das mãos de uma loira extremamente peituda vestida com um maiô vermelho decotado, seu despertador tocou, trazendo-o de volta à dura realidade.
Esteven chega em cima da hora e bate o ponto no banco. Senta em frente ao seu computador e analisa a lista de telefonemas que deveria fazer até o final de semana. Mas antes que colocasse o fone no ouvido, seu chefe o chama a sua sala. Depois de minutos exaltando o quanto Esteven era um bom funcionário, o chefe diz que ele está demitido. A ironia da situação força Esteven a cair na gargalhada. Esteven volta pra casa mais cedo naquele dia. A mulher está tricotando quando ele adentra a sala. Ela sorria. Ele forçava um sorriso.
- Preciso te dizer uma coisa. – disse Esteven.
- Eu também preciso. – retrucou a mulher.
- Você primeiro.
- Ganhamos na loteria! – disse a mulher eufórica. – Você finalmente poderá sair daquele emprego que tanto odeia.
Esteven sorriu. Um sorriso verdadeiro como ele não sorria a muito tempo.
- O que você ia dizer?
- Não importa mais. – disse sem emoção. – Eu recebi um pequeno aumento. Mas que diferença faz isso, agora? Pedirei as contas amanhã mesmo.
- Que bom! – disse a mulher.
Esteven sorri. “Que bom mesmo”, pensa. Finalmente poderia comprar um uniforme novo.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Rotina

Oito horas da manhã, soa o despertador na cabeceira. Como marteladas frias e constantes, o som do dever foi despertando gradativamente Joaquim de seu sono profundo. Ele levantou-se da cama com pesar, sentindo o vento gélido da manhã chicoteando suas canelas descobertas e fazendo seus pêlos se arrepiarem. Ligou o chuveiro e despiu-se enquanto esperava que a água do banho esquentasse. Entrou no box e deixou a água quente cair sobre ele. Fez sua higiene com pressa, como era de praxe. Puxou a toalha e enxugou o rosto primeiramente, seguido pelo resto do corpo. Voltou ao quarto com a toalha presa a cintura. Caminhou em passos silenciosos até o armário e escolheu um terno adequado. Vestiu-se em velocidade e discrição impressionantes enquanto saía do quarto até chegar na cozinha.
Olhou frustrado para a cafeteria que ainda continha café da noite anterior. “Ela deve ter se esquecido de fazer café hoje de manhã” ponderou Joaquim em relação à mulher. Ela sempre fazia café fresco enquanto ele estava no banho. Pegou o uma caneca no armário e completou com o café amanhecido. Tomou seu conteúdo num único gole. O gosto do café frio fez com que sua mandíbula se contraísse involuntariamente, o líquido enregelado e amargo desceu pela garganta de Joaquim arranhando-a.
Joaquim voltou para a sala e calçou os sapatos. Caminhou até o quarto silenciosamente, beijou o rosto da mulher que ainda dormia e foi embora. Pegou a chave do carro, saiu de casa, trancou a porta e chamou o elevador. Ele chegou mais rápido do que o normal e estava vazio. “Que sorte a minha,” ponderou Joaquim “assim consigo evitar aquela conversa chata de elevador com pessoas que nem sei o nome”. Entrou e apertou o botão do subsolo. A porta do elevador se fechou e iniciou a descida enquanto seu único passageiro torcia para que não parasse em andar algum a não ser o que ele próprio requisitou.
O elevador chegou ao subsolo sem nenhuma interrupção. Joaquim olhou para o relógio de pulso. O ponteiro menor estava a meio caminho do nove, enquanto o maior estava postado sobre o oito. Estava atrasado. Ele se apressou tanto para chegar ao seu carro que nem percebeu o quão cheio estava o estacionamento do prédio.
Entrou no carro, jogou sua pasta no banco do passageiro, ligou e partiu. As ruas estavam mais vazias que de costume, mas ainda assim Joaquim andou o mais rápido que pôde. Costurando todos os “pés presos” que estavam em seu caminho, ele chegou à empresa e desceu do carro esbaforido. Correu para a porta de entrada, mas quando se colocou em frente à porta de vidro percebeu que havia esquecido a pasta dentro do carro. Voltou apressadamente para buscá-la. Deu uma olhada rápida no relógio. 8h55. Abriu o carro, pegou a pasta, fechou o carro. Correu até a porta de entrada e quase bateu a testa no vidro quando a empurrou, mas ela não se abriu.
Intrigado, o segurança da empresa, Jeferson, foi até ele. Mas antes que ele pudesse fazer qualquer indagação, Joaquim começou a praguejar:
- Porra, Jeferson! Que merda é essa!? Não são nem nove horas e a porta já está fechada. Abre logo essa bosta pra eu entrar. Anda...
Ainda mais confuso Jeferson apenas respondeu:
- Mas senhor, hoje é sábado.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Clara e o banheiro

Baseado em fatos reais...

Clara é uma universitária de 19 anos que cursa Publicidade e Propaganda em uma instituição particular renomada. Uma garota que gosta de badalações e de beber com seus amigos. Não perde boas oportunidades de cabular aula para ficar bebendo com os amigos em algum bar. Ou seja, uma universitária como outra qualquer.
Sexta-feira, como se tornou hábito entre Clara e seus colegas, antes de ir para a aula todos se reúnem em um bar fixo que fica nas redondezas da faculdade. E é em uma dessas sextas que acontece o que vos contarei.
Os universitários já estavam a horas naquele bar, tomando umas cervejas. E logicamente, Clara estava entre eles. O bar escolhido é um lugar de alto fluxo de pessoas, tanto universitários quanto amigos e conhecidos que apenas freqüentam o local. Por esse motivo é normal encontrar um ou outro rosto familiar em meio à multidão. Naquele dia, Clara encontrara um garoto que não era apenas um garoto. E sim um verdadeiro deus, digno de adoração divina. Raphael estudara com Clara no colegial e ela sempre fora completamente apaixonada por ele. E sabem como é um amor platônico. Você pensa que ele desapareceu, mas na verdade está apenas de tocaia, esperando o momento certo de sair da moita e acertar uma flechada certeira no meio do peito.
- Olá, Clara. – disse Raphael, abordando a garota com um sorriso na face deixando a mostra seus dentes perfeitamente brancos. – A quanto tempo não nos vemos, não é mesmo?
- O... oi Rapha. – respondeu Clara, gaguejando. – Faz tempo mesmo. Não esperava te encontrar por aqui.
- Nem eu. Você também estuda aqui? – perguntou o rapaz, se referindo a faculdade.
- Como assim também? Você é que também estuda aqui. – Clara já estava um pouco alterada devido ao número de cervejas ingeridas.
- Que coincidência. Bom, estou indo pra aula agora. Se você quiser vá me ver no prédio de Administração. Estarei por lá. – disse isso e deu um sorriso que no dicionário dos sorrisos tem a definição de “sou bonito, metido e tento ser simpático” e cujo objetivo é fazer as garotas derreterem aos seus pés. E foi exatamente isso que aconteceu com Clara. Ela sequer conseguiu responder.
Sem esperar por uma resposta, Raphael virou as costas e seguiu rumo ao campus. Clara ficou por uns instantes tentando processar aquele momento. Quando sua ficha finalmente caiu, ela se virou para seus amigos e chamou um deles em especial.
- Thi! – Thiago, o amigo para todas as horas e ocasiões de Clara, olhou displicentemente para a garota. Seus olhos possuíam um leve traço oriental que não negavam que ele não estava mais sóbrio. – Você ainda vai querer subir para a primeira aula?
Thiago olhou para o relógio antes de responder.
- Nem ia dar mais tempo mesmo. – Clara sorriu ao ouvir aquilo.
- Então vamos pro campus comigo. – disse a garota em um tom que não deixava muita escolha. Thi ergueu a sobrancelha esquerda parecendo confuso.
- Você não acabou de perguntar se eu não queria ficar aqui?
- Eu não perguntei se você queria ficar aqui. – respondeu Clara. Thiago ficou mais confuso ainda. – Perguntei se você queria ir para a aula. Já que você não quer, você pode ir comigo até o prédio de Adm. – como Thiago não respondera, Clara fez uma carinha de cãozinho sem dono que ela era profissional, pós-graduada e mestre em fazer. – Por favor.
- O que você quer fazer lá? – questionou tentando ignorar aqueles olhos pidões.
- Tem alguém que eu quero procurar. Vai, Por favooooor. – aquele olhar era assassino.
Thiago respirou fundo e abaixou a cabeça, resignado.
- Então vamos.
Caminharam os dois em direção ao campus. Eles não sabiam onde exatamente era o prédio de Administração, mas tinham uma leve idéia. No caminho, Clara explicou a situação toda para Thiago. Ele já vira Raphael andando pelo campus, e saberia reconhecê-lo.
Os dois chegaram ao prédio que acharam ser o de Administração. Era uma das construções mais antigas do campus. Um edifício de três andares, ostentoso. Thiago parou em frente a ele.
- Eu acho que é esse, mas qual é o andar?
- É no segundo. – disse Clara com firmeza. Thiago fitou-a com cara de interrogação.
- Como você sabe?
- Como eu sei? Eu não sei como eu sei, só sei que sei. – Thiago não respondeu. – É no segundo. Vamos.
Eles foram. Subiram as escadas e adentraram no prédio. O interior era bem iluminado e tinha dois corredores opostos, com três portas com janelas de vidro para cada lado. Cada uma dessas portas era uma sala, na qual Raphael poderia estar.
- Vai para aquele lado que eu vou pra esse. – disse Clara. – Vê se encontra o Raphael.
Eles se separam e começaram a olhar o interior das salas, procurando o tal rapaz. Clara se pôs nas pontas dos pés para poder enxergar a sala através da janela de vidro que ficava na porta. Vasculhou a primeira sala com os olhos famintos. Nem ligou quando vários dos alunos dirigiram seus olhares curiosos para ela. Nenhum sinal de Raphael. Quando passou para a segunda sala, percebeu que Thiago ainda estava na sua primeira. Fitava o interior com uma concentração exacerbada.
- Achou ele, Thi? – questionou Clara animada. Thiago nem desviou os olhos da janela para responder.
- Não, mas tem uma loira sensacional nessa sala. – disse Thiago. – E ela não pára de olhar pra mim.
Clara virou os olhos e balançou a cabeça negativamente. Passou para a sala seguinte. Investigou minuciosamente e nem sinal de Raphael. Só então percebeu que toda aquela cerveja que tinha tomado estava começando a fazer seu efeito diurético. Ela precisaria ir ao banheiro em breve. Passou para a terceira sala, a última do seu lado do corredor. Mais uma vez não viu o seu procurado. E pior que isso. Ela estava começando a ficar realmente apertada. Olhou para o lado oposto do corredor. Thiago ainda estava na primeira sala. Por um instante ela se esqueceu completamente de Raphael e saiu em direção a onde ela imaginava ser o banheiro.
Sua expressão não escondeu o seu pavor. Só havia um banheiro naquele andar. O masculino. Talvez o álcool que corria no sangue de Clara a impedia de racionar com clareza. Pois nem lhe passou pela cabeça descer um andar ou talvez subir um para procurar o sanitário feminino. Ela não teve reação alguma. Apenas ficou olhando aquele bonequinho pintado de azul estampado na porta do sanitário.
- Thi, você já veio aqui nesse prédio? – gritou Clara ainda olhando a placa do banheiro.
- Não. – veio a resposta do corredor. – Mas preciso voltar mais vezes. Tem uma morena maravilhosa aqui nessa sala que não tira o olho de mim.
“Não era loira?”, ponderou Clara. Mas isso era desimportante naquele momento. Ela precisava de um banheiro ou um acidente de níveis inimagináveis estaria prestes a acontecer.
- Thiii!!! – Clara estava entrando em desespero.
- Que foi? – Thiago finalmente apareceu no corredor. Parecia preocupado.
- Preciso ir ao banheiro. URGENTE.
- Ué, então vai log... – Thiago apontou para a porta que estava à frente deles. Só então percebeu que o bonequinho era azul e não vestia uma saia. – Putz... agora ferrou.
Thiago olhou para um lado do corredor, depois para o outro. Então lançou um olhar rápido para a escada. Clara não entendeu nada e questionou na mesma hora em que o amigo olhava para o próprio pulso, onde tinha um relógio.
- O que a gente faz? – Thiago lançou um olhar inquisidor antes de responder:
- Eu vou ficar de guarda aqui.
- E eu? – disse Clara de sopetão. Mas demorou a entender o que o amigo disse. – De guarda pra que?
- Pra você ir ao banheiro. – respondeu Thiago como se aquilo fosse a coisa mais óbvia do mundo.
- Mas esse banheiro é masculino! – retrucou Clara com o mesmo tom.
- Eu não precisaria ficar de guarda se houvesse um banheiro feminino aqui, né gênio?
Só então Clara compreendeu as intenções do seu amigo. Ele ficaria de guarda enquanto ela usaria o banheiro masculino. Não era o plano mais infalível do mundo, mas Clara não tinha escolha. Era isso ou voltar pra casa com a calça molhada.
– Ainda faltam 45 minutos para acabar a primeira aula. – disse Thiago consultando o relógio novamente. – Acho que os corredores ficarão desertos assim por um bom tempo. Anda logo!
Clara assustou-se com a reação, mas fez o que o amigo disse. Correu para o banheiro e se trancou dentro de uma cabine. Abaixou a tampa e sentou no trono. Relaxou o abdômen. O alívio foi instantâneo. Como se uma tonelada fosse retirada de suas costas após ela ter suportado o peso por horas. Clara estava quase no fim dos seus deveres quando começou a ouvir barulho de líquido atingindo a cerâmica. E vinha de fora da cabine onde estava. Imaginou que fosse do mictório. Ela entrou em desespero.
- Acho que também tomei cerveja demais. – disse a conhecida voz de Thiago, seguida por sua risada.
- Thi, que susto que você me deu!
- Silêncio! – disse Thiago subitamente. Clara se calou. – Vem vindo alguém.
E realmente vinha. Clara pôde ouvir os passos.
- Opa. – disse a voz de Thiago.
- E aí. – respondeu uma voz masculina desconhecida nada simpática.
Os passos continuaram e ficavam cada vez mais próximos. Clara olhou para o chão e viu a sombra daquela pessoa em frente a sua cabine. Ele forçou a porta tentando abri-la. O coração de Clara bateu acelerado. Ela se segurou para não deixar escapar uma expressão de medo.
- Está trancada. – disse a voz de Thiago. – Eu também tentei abrir, mas alguém deve ter trancado por dentro de algum jeito.
Clara respirou aliviada. Ouviu enquanto Thiago lavava as mãos na torneira e o outro saciava suas necessidades fisiológicas no mictório. Ouviu quando este terminou e deixou o banheiro.
- Ele nem lavou as mãos. – comentou Thiago num sussurro.
Clara ficou mais aliviada. Mas esse momento durou pouco. Estava prestes a deixar a cabine quando ouviu uma balbúrdia que vinha de fora do banheiro.
- Eu vou checar. – disse Thiago instantaneamente. Clara aproveitou que estava só no banheiro e abaixou a tampa do vaso. Sentou-se sobre ela e colocou os pés pra cima, com os joelhos colados no peito. – Clarinha, más notícias. Uma sala acabou de ser dispensada. Você vai ter que esperar. Eu vou ficar do lado de fora, não saia até eu falar que...
Clara pôde ouvir quando pessoas adentraram o banheiro. Thiago parou de falar repentinamente. Provavelmente já estava fora do toalete. As conversas continuavam do lado de fora da cabine. Algumas pessoas tentaram abrir a porta.
- Essa porta está trancada.
- Será que tem alguém?
- Tem alguém aí? – perguntou uma voz. Bateu na porta três vezes.
- Acho que está trancada por dentro.
- Desencana, mija no mictório mesmo.
Aos poucos as conversas foram cessando e o fluxo de pessoas diminuindo. De repente o silêncio reinou novamente. Clara se preparava pra sair quando a voz de Thiago a fez parar.
- Clarinha, vem vindo mais gente. Você não deu sorte.
“Nem me diga”, pensou a garota. Dessa vez entrou apenas uma pessoa pelo que ela pôde perceber. Mais uma vez tentou entrar na cabine. Mais uma vez não conseguiu.
- Tem alguém aí? – perguntou. Clara reconheceu a voz. Era Raphael. Ela encolheu ainda mais as pernas contra o próprio peito. Tremendo de medo. E se ele soubesse que era ela que estava ali? Sua imagem iria para o limbo. – Quem ta aí? – insistiu ele. De repente um som chamou a atenção dela. A tranca começou a girar. Como era possível?
Como um flash, Clara lembrou-se de uma conversa de seus amigos que presenciara uma vez. Eles falavam algo sobre abrir a cabine dos banheiros da faculdade pelo lado de fora. Eles disseram na ocasião que sabiam como fazer. Na época ela não deu atenção. Mas pelo visto era mesmo verdade. E Raphael também sabia como fazer. Não era possível que aquele deus grego da atualidade a visse dentro de um boxe do banheiro masculino.
Crack.
A fechadura se abriu por completo. Aos poucos ela pode ver a porta da cabine se abrindo. Era mesmo Raphael que a abrira. Ele olhou nos olhos da garota.
- Clara!?


- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃO! – bradou Clara a plenos pulmões.
O ambiente estava diferente. O cérebro de Clara demorou a assimilar tudo. Ela estava em sua casa. Deitada em sua cama. Era noite. De repente as luzes se acenderam.
- Clara, o que aconteceu? – pelo visto o grito acordara sua mãe. – Está tudo bem?
- Foi apenas um sonho, mãe. – disse ofegante. Tinha sido muito real. – Está tudo bem agora.
Clara realmente achou que aquilo tudo realmente acontecera. Poderia jurar que de fato estivera no banheiro. Mas saber que era apenas um sonho a deixou muito aliviada.
- Clara?
- Sim, mamãe?
- Por que o seu lençol está molhado?


FIM

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Sejam todos bem-vindos!

O primeiro post, como não poderia deixar de ser, nada mais é do que uma introdução.
Meu nome é Taian Rosa Aoki e essa é a minha primeira experiência com blogs.
Na verdade eu nem sei direito porque eu fiz um. Talvez foi por insistência de um amigo meu do qual não preciso citar o nome (ele sabe que é dele que estou me referindo), talvez porque eu já tinha vontade de fazer mas faltou iniciativa. Mas aqui está e vamos ver no que vai dar.
Nesse blog eu pretendo principalmente escrever crônicas acerca dos acontecimentos do meu dia-a-dia. Eu já havia pensado em tranformar os fatos marcantes em obras literárias afim de perpetuá-las e, pensando bem agora, esse diário virtual veio bem a calhar.
Agradeço desde já a todos aqueles que vierem a frequentar este sítio e peço encarecidamente que comentem e sejam sinceros. Não hesitem em mandar uns bons e velhos "QUE MERDA DE POST", mas pelos digam o porquê disso.
Obrigado.