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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Musicontos - The Man Who Sold the World






Às vezes, quando olho pela janela e o reflexo de meu rosto se confunde com as sombras negras da cidade, meu pensamento se perde em lembranças passadas que nem consigo me recordar com certeza se ocorreram de verdade ou foram meros devaneios perdidos no mundo dos sonhos incompletos. Às vezes nem reconheço meu rosto no reflexo. E quando percebo, perdi horas e horas pensando em coisas das quais mal consigo me lembrar. É isso que acontece quando se envelhece castigado pela solidão. Suas lembranças se confundem com os sonhos e sua vida passa a ser uma incógnita que jamais será decifrada.
Hoje acordo sem saber quantos anos se passaram desde que sorri pela última vez. Já não faz mais diferença. Preferia saber quantos anos de lamúria ainda me restam. Quero descansar. De verdade. Quando me deito na cama e fecho os olhos, não sinto nada. Parece que o sono foge de mim, como um vampiro fugindo do alho. Meus olhos ardem, meu corpo está cansado e dói de modo que não há uma posição confortável em meu leito macio. Rolo de um lado para o outro e, quando percebo, a cabeceira está em meus pés. E não consigo adormecer. Eu evito pensar nele, contudo é a única maneira de cair no sono. É o único dos soníferos que ainda me fazem efeito.

A verdade irá purificá-lo, ele disse. Mas como posso ser purificado se ao menos sei o que é real?

De repente o sono me envolve e eu estou caindo. Caindo lentamente. Olho para os lados e as paredes passam a minha volta, como num poço profundo. Eu não sinto medo. O poço acaba em uma lagoa negra. Quando caio na água gélida, meu corpo se enrijece e eu volto a sentir vida em mim novamente. Submerso, procuro pela superfície, porém não a encontro. Sem luz para me guiar, vou seguindo meu instinto. Parece que ele resolveu voltar a funcionar. Vou nadando na direção que meu corpo me guia. Sem ar, sem medo, vou seguindo o meu caminho. Quando vejo um rastro de luz. É uma luz muito fraca e longínqua de cor âmbar. Meu coração dispara. Eu nem sabia que ele ainda batia. Guiado pela luz, cheguei a uma caverna submersa. A caverna era como um imenso hall, a água formava uma piscina natural de beleza única. A luz âmbar estava espalhada uniformemente por toda a caverna, contudo não havia nenhum sinal de tocha ou fogueira. A luz simplesmente estava ali. De repente eu me vi cheio de esperança.

Esperança, sentimento de gente jovem que ainda tem muitas chances de errar na vida. Que saudades eu estava de você!

Há tempos também não sabia o que era sentir saudades. Caminhei calmamente pela caverna. Observando cada um de seus detalhes, cada uma de suas imperfeições. Foi quando avistei uma escadaria. E a reconheci. Seria uma espécie de dejavu? Ou seria um fragmento de lembrança carta vez esquecido? E por que ela viria à tona agora? Olhei para os quatro cantos da caverna procurando alguma outra opção. Mas nada além daquela escadaria me parecia óbvio. Subi. Cada passo, um suspiro. Cada degrau demarcado pela batida de meu coração. Nem me lembrava mais de como era estar nervoso!
No topo da escada, um portal. Confeccionado em madeira crua. Empurrei-o e ele deslizou pelo batente. Um novo salão emergiu atrás da passagem. Entrei. A mesma luz âmbar sem origem iluminava esse outro aposento. No fundo da sala, um homem recostado em uma poltrona de espaldar alto me fitava. Ele não parecia surpreso, ou intrigado. Na realidade, ele não parecia sentir. Meu coração palpitava freneticamente. Mesmo sem conseguir ver seu rosto, eu sabia que era ele. Eu sentia. Caminhei em sua direção, sem nada a dever. Afinal, não tinha sido eu o responsável. Ele fizera tudo por conta própria e fiz questão de não influenciá-lo em sua decisão. Eu sempre fui seu amigo, embora ele nunca tivesse me dito. Eu sabia disso. Ele sabia disso.

Eu pensei que você tivesse morrido sozinho, muito muito tempo atrás.
Oh não.

E de repente tudo se fez claro pra mim. Ele não poderia morrer. Era parte do pacto. Ele teria que ficar por toda a eternidade. Seria ele quem julgaria se as partes do acordo estavam sendo cumpridas.

Então você não o vendeu completamente.
Eu não. Eu nunca perco o controle.

E lá estava eu, cara a cara com ele. E me lembrei de tantas outras vezes que nos encontramos. Quando conversávamos sentados sobre aquela mesma escada, proseando sobre o “o que?” e sobre o “quando?”. E eu sorri. Um sorriso puro e cru, como não sentia há anos. Cintilando pela caverna, ofuscando até mesmo o brilho da luz âmbar. Foi quando me dei conta que a luz era emanada dele. O fitei por um segundo. Talvez o mundo continuasse sendo o mundo independente do que ele tivesse feito. Talvez não.
Ele estendeu sua mão a mim. E eu a toquei.
Abri os olhos lentamente. Estava em meu quarto. A penumbra da madrugada adentrava a minha janela e os vultos da cidade dançavam em minha parede como fantasmas que queriam tirar de mim a beleza da verdade. Mas dentro de mim ainda trazia comigo a centelha de meu último sorriso e a beleza pura da luz âmbar. Agora eu sabia da verdade, ele estava lá para fazer com que o pacto fosse cumprido. Ele nunca abriu mão de nada.
Eu que há anos e anos não sentia aquilo. Era uma força tão grande dentro de mim que nem mesmo as milhões de respostas não respondidas seriam capazes de tirá-la de mim.

Mas aquilo teria sido de fato real?
E se nós morremos sozinhos, há muito muito tempo atrás?
Quem sabe?
Eu não.

2 comentários:

  1. Da hora, cara! Muito bom mesmo! Ler isso ouvindo a música foi realmente bem poético!
    Abs!!

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  2. Ficou animal! SERIO! Depois quero discutir com você minha interpretação! Mas achei incrivel como você consegue descrever tudinho, consegue envolver e fazer com que a gente tambem consiga entrar na sua viagem! Da hora Testa, espero que você continue a me entreter com seus contos! Beijos Testinha haha

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