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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Musicontos - Cegos do Castelo





“Eu não quero mais mentir”, ele pensou.

E com esse pensamento, que parece inocente e altruísta para quem o ouve assim despretensiosamente, se iniciou uma jornada. Nada é tão simples quanto se deseja que fosse. Parar de mentir é um processo que gera consequências não apenas para si próprio. E visto o cargo ocupado por ele, parar de mentir não era uma possibilidade. E, embora estivesse decidido a fazê-lo, teria de optar por sua posição ou seu ideal. Não hesitou um segundo sequer.
Ao meio-dia sua mesa estava toda arrumada. Seu escritório particular estava impecável como sempre fora, afinal não poderia levantar suspeitas ou seu plano fracassaria antes mesmo de ser colocado em prática. Arrumou sua maleta. Porém, dessa vez ela não levaria os importantes e sigilosos documentos de outrora. Ela serviria para carregar os poucos objetos de seu escritório que realmente lhe serviriam para algo. Uma caneta, um talão de cheques, um bloco de anotações com alguns telefones, um porta-retratos com uma foto específica. Olhou para a foto mais uma vez. Um tímido sorriso surgiu no canto de sua boca. Ele se perdeu naquela foto por alguns segundos até que uma batida na porta de seu escritório o despertou. Ele rapidamente guardou o porta-retratos na maleta e anunciou ao visitante:

“Entre.”

Era sua secretária. Ela trazia a lista de compromissos do dia. Ele mal ouvia o que era dito pela outra. Aliás, queria poder mandá-la a puta que a pariu e dizer o quanto ela era chata e impertinente. Mas focou-se em fingir que todo aquele blablablá era importante, desejando que ela terminasse logo. Nada daquilo fazia diferença para ele. Não mais. Há tempos ele já não via glória naquilo tudo. Tudo que ele desejou (e conseguiu) já não fazia mais sentido nenhum. Por fim, aquela tagarela frígida terminou de falar. Ele não quis se prolongar, apenas respondeu:

“Certo, obrigado.”

E ela finalmente saiu da sala. E ele pôde, enfim, começar a colocar seu plano em prática. O primeiro passo seria anunciar aquilo que há meses já estava estampado em sua testa. E que ninguém via. Pegou um de seus papéis timbrados que já vinha especificado com seu nome e cargo, sentou-se em sua confortável poltrona, escolheu uma de suas preciosas canetas de nanquim e transcreveu o texto que já estava pronto em sua mente há tempos.


Prezados senhores intocáveis,

Venho por meio desta, manifestar o meu descontentamento com o rumo que vosso governo vem tomando. Milhares e milhares de colaboradores sofrem consequências terríveis, para que os senhores possam desfrutar ao máximo do que a vida tem a oferecer. Os senhores estão cegos pela ganância e pelo poder. Intocáveis, no alto de vossos castelos, os senhores assistem a desgraça do povo e riem dela, com as mãos lavadas em suas mentes.
O que os senhores não vêem é vossas mãos estão mais sujas do que a ganância que vos cega e que as feridas alheias provêm de espinhos que foram cultivados por vós. E não me excluo disso. Contudo, partirei antes que os senhores decidam puxar o gatilho e que o revolver venha a explodir. Não farei mais parte disso.
Quando lerem isso, já estarei longe. Não me procurem, pois não me acharão. Desejo aos senhores toda a sorte. Mas não para vossos planos e sim para vossas almas. Que elas sejam perdoadas, ou que algo possa iluminá-los antes que seja tarde. Adeus”.



Ele assinou a carta e a posicionou perfeitamente alinhada ao centro da mesa. Deu uma última olhada na sala que ocupara nos últimos meses, sem sentir orgulho ou pesar em deixá-la. E partiu. Passou pela secretária anunciando que ia para uma reunião de urgência em um lugar qualquer que lhe veio à cabeça. Ela ainda questionou algo sobre o compromisso agendado e ele só se deu o trabalho de dizer:

“Marque para amanhã”.

Saiu apressado, deixando para trás toda a podridão e cobiça que destruiu tantas outras pessoas de bem. Pegou um táxi e ditou um endereço específico. Abriu sua maleta e puxou o porta-retratos dela. Olhou para a foto novamente. Nunca se cansava de olhar. Um jovem rapaz com cara de perdido abraçava uma linda garota que expunha um belíssimo sorriso. Ele mal se reconhecia naquela foto. Tão jovem e cheio de desejos e ambições, tão cheio de princípios que julgava serem inabaláveis. Tão ingênuo. E ela. Uma garota que mesmo sendo nova, era sim uma pessoa plena e incorruptível. Ela, que fora e sempre seria a possuidora do mais belo sorriso do mundo. Ela, a dona do endereço para o qual rumava o táxi onde ele estava naquele momento. Ela que jamais tentara convencê-lo de nada, nem do errado e nem do certo. Mas era ela a responsável por fazê-lo cair na real, quando disse pequenas palavras.

“Se você quiser me achar”, ela disse. “que seja você de verdade”.

Agora ele rumava para encontrá-la. E levava consigo apenas aquilo que era necessário. Pois seu lar estava lá, ao lado dela. Ele sabia que o fato de ter abandonado o barco não o tornava uma pessoa melhor, muito menos o eximia de culpa por todos os espinhos lançados. Mas ele lutaria para melhorar. Ele reconstruiria sua vida, passo a passo. Como numa grande caminhada, não se alcança o destino final de uma só vez. É preciso dar um passo de cada vez. E sabia que ela sempre estaria lá para ajudá-lo. Pois ela jamais o abandonara, mesmo quando não via sinal de humanidade nele. Como um jardim, ela semeou a terra e cuidou do terreno com todo carinho e dedicação que uma pessoa poderia ter, mesmo que as flores não dessem sinal algum de que fossem germinar. E agora era a vez dele cuidar dela. Talvez ficasse em casa para preparar o jantar quando ela saísse para trabalhar. Talvez mudassem para o interior. Ou para a praia. Onde seriam apenas ele e ela. E o céu e o mar.

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